Procedimento · Otologia
Implante coclear: da avaliação à ativação
O implante coclear é a cirurgia a que mais me dediquei na carreira: fiz fellowship em cirurgia otológica e de base lateral do crânio e doutorado em otorrinolaringologia na USP. Aqui explico o que costumo conversar no consultório com quem está considerando o implante, para você ou para alguém da sua família.
"Meu aparelho auditivo não ajuda mais." E agora?
Essa é a frase que mais escuto antes de começar a investigar um implante. Ela costuma aparecer quando a perda auditiva chega ao grau severo ou profundo.
Numa audição típica, a cóclea, que fica no ouvido interno, transforma a vibração do som em impulsos elétricos e os envia ao nervo auditivo. O aparelho auditivo amplifica o som, mas depende de uma cóclea que ainda consiga fazer essa conversão. Quando as células da cóclea estão muito comprometidas, mandar um som mais forte deixa de resolver.
O implante coclear não amplifica o som: ele contorna a parte da cóclea que não funciona e estimula o nervo auditivo diretamente. Por isso não é um aparelho auditivo mais potente, e sim um dispositivo com outro princípio de funcionamento.
Como o implante funciona
O implante tem duas partes:
- Uma parte externa, o processador de fala. Ele fica atrás da orelha, capta o som do ambiente e o transforma em um código digital.
- Uma parte interna, que coloco durante a cirurgia. Ela tem um feixe de eletrodos posicionado dentro da cóclea, que estimula o nervo auditivo.
Como sei se sou candidato?
Avalio a candidatura em pessoas com perda auditiva neurossensorial de grau severo a profundo que não têm benefício suficiente com um aparelho auditivo bem adaptado. Isso inclui:
- crianças com perda identificada no teste da orelhinha ou ao longo do desenvolvimento;
- adultos cuja perda foi aumentando até esse grau;
- adultos com perda súbita que não recuperaram a audição;
- em situações selecionadas, perda em um ouvido só.
O grau da perda no exame é o ponto de partida, não a conclusão. Dois pacientes com exames parecidos podem receber recomendações diferentes.
Existe idade limite?
Não. Já indiquei implante para bebês de poucos meses e para pacientes idosos. O que muda com a idade não é a possibilidade de operar, e sim a expectativa de resultado e o tempo de adaptação.
Em bebês operados antes de 1 ano, o cérebro ainda está na fase mais sensível para aprender a processar som e fala. Em adultos, o que mais pesa é o tempo que a pessoa ficou sem ouvir: quanto menor esse tempo, mais rápida tende a ser a adaptação. Quem convive com a surdez há muitos anos também pode se beneficiar. O que muda é a expectativa, que eu converso caso a caso.
Vídeo no Instagram Assista no InstagramComo é a minha avaliação
Nenhum exame decide sozinho. A indicação nasce do conjunto:
| Etapa | O que responde |
|---|---|
| Audiometria e imitanciometria | Qual o grau e o tipo da perda auditiva |
| BERA | O limiar auditivo, sem depender de resposta do paciente |
| Teste com aparelho auditivo | Quanto a amplificação ainda ajuda |
| Avaliação fonoaudiológica | Como estão a linguagem e a percepção da fala |
| Exames de imagem do ouvido | Se a cóclea e o nervo auditivo têm anatomia favorável |
| Avaliação clínica | Se a saúde geral permite a cirurgia |
Os exames de audição são feitos na própria Clínica Rhinus. Discuto o caso com a fonoaudióloga e converso com você e a sua família sobre o que esperar, antes de qualquer decisão.
Como é a cirurgia
Opero sob anestesia geral, em ambiente hospitalar, então não há dor durante o procedimento. Depois da cirurgia, o desconforto costuma ser leve e é controlado com analgésicos comuns. A maioria dos pacientes recebe alta no mesmo dia ou no dia seguinte.
Nos primeiros dias, os cuidados principais são:
- manter o curativo compressivo em volta da cabeça, sem molhar;
- não pressionar a região operada;
- evitar esforço físico até eu liberar.
Alguma sensibilidade ou inchaço no local é comum nas primeiras semanas e diminui aos poucos.
Vacinas antes da cirurgia
Quem tem implante coclear tem um risco maior de meningite bacteriana do que a população em geral. O motivo é anatômico: o feixe de eletrodos fica dentro da cóclea, que se comunica com o líquido que envolve o cérebro. Em casos raros, uma infecção no ouvido médio pode seguir esse caminho até as meninges, as membranas que revestem o cérebro. A bactéria mais envolvida é o pneumococo; o Haemophilus influenzae tipo b também pode causar meningite.
Por isso, antes da cirurgia, eu confiro e completo a vacinação:
- vacinas pneumocócicas: a conjugada e a polissacarídica 23-valente, no esquema indicado para a idade;
- vacina contra Haemophilus influenzae tipo b (Hib);
- o restante do calendário de vacinação em dia.
O ideal é terminar o esquema pelo menos duas semanas antes da cirurgia. Para quem vai receber o implante, essas vacinas estão disponíveis gratuitamente nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) do SUS, com pedido médico.
Depois da cirurgia, a proteção continua importante: qualquer infecção de ouvido em quem tem implante precisa ser avaliada e tratada logo.
Riscos
Como toda cirurgia, o implante tem riscos, que explico em detalhe na consulta. Os mais conhecidos são:
- tontura ou zumbido passageiros;
- alteração temporária do paladar;
- infecção;
- raramente, fraqueza do nervo facial ou falha do dispositivo, que pode exigir nova cirurgia.
Quando o implante é ligado
O implante não é ligado no dia da cirurgia. Esperamos a cicatrização, geralmente de 15 a 20 dias. Então vem a ativação: a fonoaudióloga especializada em mapeamento liga o processador pela primeira vez e começa a ajustar os eletrodos para você.
É a partir daí que começa o trabalho mais longo. O som do implante é diferente do som natural, e o cérebro precisa aprender a interpretá-lo. Isso acontece com:
- sessões de mapeamento, para ajustar a estimulação ao longo do tempo;
- reabilitação auditiva com fonoaudióloga, que é parte do tratamento, e não um complemento opcional;
- acompanhamento comigo, com reavaliações periódicas.
Quanto tempo até ouvir bem?
Não é instantâneo, e isso costuma surpreender quem espera "ouvir normal" ao sair da cirurgia. A evolução varia muito com a idade, o tempo de surdez e a causa da perda. Crianças implantadas cedo tendem a desenvolver fala e linguagem mais próximas do esperado para a idade. Adultos que ouviam antes de perder a audição costumam se adaptar mais rápido, porque o cérebro já "sabe" o que é som e fala.
O plano de saúde cobre?
Sim. No Brasil, o implante coclear tem cobertura obrigatória por todos os planos de saúde, conforme a Diretriz de Utilização da ANS, desde que haja indicação médica documentada.
- A consulta comigo é particular.
- A cirurgia pode ser feita pelo convênio, inclusive por planos que a Clínica Rhinus não atende, justamente por causa da cobertura obrigatória.
- Depois da indicação, a equipe da clínica prepara a documentação técnica e os códigos que o plano exige para o pedido de autorização.
Para a sua primeira consulta
Traga o que já tiver: audiometrias, BERA, exames de imagem e encaminhamentos. Revejo tudo com você, pessoalmente.
Consultas às segundas e sextas, das 9h30 às 11h30 e das 14h30 às 17h, e às terças e quintas, das 14h30 às 17h — presenciais na Clínica Rhinus, em São Luís, ou por teleconsulta.
Conteúdo revisado pela Dra. Aline Gomes Bittencourt · CRM-MA 7562 · RQE 1832 · em
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