Procedimento · Otologia
Prótese auditiva ancorada no osso: quando o som precisa de outro caminho
As próteses auditivas implantáveis ancoradas no osso são uma parte da otologia a que venho me dedicando com atenção especial. Nos últimos anos, fiz treinamento cirúrgico com a prótese Sentio, na Áustria, e participei do congresso internacional OSSEO, dedicado a essa tecnologia. Aqui explico para quem ela serve e como funciona cada etapa.
"Meu ouvido interno funciona, mas o som não chega até ele"
A audição depende de uma sequência. O som entra pelo canal do ouvido, faz o tímpano vibrar, os ossinhos transmitem essa vibração e a cóclea a converte em sinal para o cérebro. Quando essa cadeia é interrompida antes da cóclea, a perda é chamada de condutiva: o ouvido interno continua capaz de ouvir, mas o som não chega até ele.
A prótese ancorada no osso parte dessa ideia. Em vez de amplificar o som dentro do canal, ela transforma o som em vibração e a entrega diretamente ao osso do crânio. O osso conduz a vibração até a cóclea, contornando o trecho bloqueado.
É diferente do implante coclear?
Sim, e a confusão é comum. O implante coclear substitui a função da cóclea e é indicado quando ela está gravemente comprometida. A prótese ancorada no osso faz o contrário: conta com uma cóclea que funciona e só entrega o som por outro caminho.
Para quem eu indico
Três situações concentram a maior parte dos casos:
- Perda condutiva ou mista. Malformações do ouvido, sequelas de otite crônica, cirurgias anteriores no ouvido, otosclerose em situações selecionadas e alterações dos ossinhos sem boa correção cirúrgica.
- Ouvido que não tolera o aparelho auditivo comum. Por exemplo:
- o canal que escorre com frequência;
- a cavidade aberta de uma cirurgia antiga;
- a dermatite que o molde do aparelho piora.
- Surdez de um ouvido só. Aqui a lógica é outra. O dispositivo fica do lado que não ouve, capta o som daquele lado e o conduz pelo osso até a cóclea do lado bom. Ele não devolve a audição do ouvido surdo, mas reduz o efeito de "sombra da cabeça", aquele som que se perde quando vem do lado em que a pessoa não ouve.
Em crianças com malformação da orelha ou sem canal auditivo (microtia ou atresia), essa costuma ser a primeira forma de estimular a audição.
Em crianças, a cirurgia é feita a partir dos 5 anos
O implante precisa ser fixado num osso com espessura suficiente. Nas crianças pequenas, o osso do crânio ainda é fino, e a fixação fica menos segura. Por isso, faço a cirurgia a partir dos 5 anos.
Até lá, a criança não fica sem estímulo: ela usa o processador preso a uma bandana, que transmite o som pelo osso sem cirurgia. Isso é importante, porque os primeiros anos são a fase em que o cérebro aprende a ouvir e a falar.
Dá para testar antes de operar
Sim, e esse teste faz parte da minha avaliação. O processador é preso a uma bandana ou a um suporte de teste, que transmite o som pelo osso sem nenhuma cirurgia. O resultado não é idêntico ao do implante, porque a pele e os tecidos entre o processador e o osso diminuem a vibração. Mesmo assim, permite que você ouça por esse caminho e que tenhamos uma conversa honesta sobre o que esperar.
Vídeo no Instagram Assista no InstagramComo é a avaliação
A audiometria é o ponto de partida. O que ela mostra sobre a via óssea é decisivo, porque é essa reserva da cóclea que a prótese vai usar. Somam-se a ela:
- os testes de fala;
- o exame do ouvido;
- a tomografia dos ossos temporais e do crânio, que mostra a espessura do osso e a anatomia disponível.
Os modelos
Hoje existem dois grandes grupos de próteses ancoradas no osso.
Com a pele fechada sobre o implante (transcutâneas)
- Bonebridge® (MED-EL). É um implante ativo: o vibrador fica sob a pele, fixado ao osso atrás da orelha. O processador externo fica preso por ímã e envia o som através da pele; quem faz o osso vibrar é o próprio implante.
- Osia® (Cochlear). Também ativo e sob a pele. O vibrador é piezoelétrico e fica ligado a um pequeno implante de titânio que se integra ao osso. O processador externo fica preso por ímã.
- Sentio™ (Oticon Medical). Também ativo e sob a pele, com o processador externo preso por ímã.
- Baha® Attract (Cochlear). Fica sob a pele, mas é passivo. O que vai implantado é um ímã fixado ao osso; quem vibra é o processador externo, e a vibração atravessa a pele até chegar ao osso. Como a pele fica no caminho, parte da vibração se perde.
Com um pino que atravessa a pele (percutâneas)
- Ponto™ (Oticon Medical) e Baha® Connect (Cochlear). Um pequeno pino de titânio integrado ao osso atravessa a pele, e o processador é encaixado nele.
Os modelos com pino têm vantagens próprias:
- a vibração chega direto ao osso, sem a pele no caminho, o que permite mais potência e é útil nas perdas maiores;
- não há ímã implantado, o que facilita fazer ressonância magnética no futuro;
- a cirurgia costuma ser mais simples e rápida;
- o mesmo processador usado no teste com bandana é o que depois vai encaixado no pino.
Em compensação, o local do pino precisa de higiene diária.
Os processadores do Ponto™ e do Baha® também podem ser usados com bandana ou faixa, sem cirurgia. É assim que faço o teste antes de operar, e é o que as crianças pequenas usam até a idade de implantar.
Nenhum modelo é melhor que o outro em abstrato. Escolho junto com você, considerando o tipo e o grau da perda, a anatomia do seu osso, a necessidade futura de ressonância magnética e a sua rotina.
Como é a cirurgia
Opero com anestesia geral, em ambiente hospitalar. O implante é fixado ao osso atrás da orelha, e o paciente geralmente vai para casa no mesmo dia.
Depois da cirurgia, o implante precisa de um período para se integrar ao osso, em torno de 3 semanas. Só então vem a ativação: o processador é ligado e ajustado. O ajuste não acontece uma vez só, porque o processador é regulado ao longo das primeiras semanas, conforme você relata o que ouve. A adaptação a esse novo caminho do som leva tempo, e o acompanhamento com fonoaudióloga faz parte do tratamento.
Vídeo no Instagram Assista no InstagramRiscos
Explico os riscos em detalhe na consulta. Os mais conhecidos são:
- problemas de cicatrização ou irritação da pele sobre o implante;
- irritação ou infecção da pele ao redor do pino, nos modelos percutâneos;
- infecção;
- desconforto no local;
- raramente, falha do dispositivo, que pode exigir nova cirurgia.
O plano de saúde cobre?
Sim. A cirurgia de implante de condução óssea consta no Rol de Procedimentos da ANS e pode ser feita pelo convênio.
- A consulta comigo é particular.
- A cirurgia pode ser feita pelo convênio, inclusive por planos que a Clínica Rhinus não atende.
Para a sua primeira consulta
Traga as audiometrias, a tomografia, se já tiver, e os laudos de cirurgias anteriores no ouvido.
Consultas às segundas e sextas, das 9h30 às 11h30 e das 14h30 às 17h, e às terças e quintas, das 14h30 às 17h — presenciais na Clínica Rhinus, em São Luís, ou por teleconsulta.
Conteúdo revisado pela Dra. Aline Gomes Bittencourt · CRM-MA 7562 · RQE 1832 · em