Procedimento · Otologia
Colesteatoma e mastoidectomia: quando a cirurgia é o tratamento
Quando encontro um colesteatoma, costumo dizer ao paciente: esse não é um problema para acompanhar, é um problema para tratar. Diferente de uma perfuração simples do tímpano, que em geral fica estável, o colesteatoma cresce e vai causando complicações. Aqui explico o que ele é, por que o tratamento é cirúrgico e como é a cirurgia.
O que é o colesteatoma
É um acúmulo de pele num lugar onde ela não deveria estar: dentro do ouvido médio. Ele cresce lentamente e vai corroendo as estruturas ao redor, a começar pelos ossinhos da audição. Não regride com medicamento. O tratamento é cirúrgico, e por isso o diagnóstico precoce faz diferença.
Quais sinais me fazem suspeitar
O sinal mais comum é um ouvido que escorre há muito tempo, às vezes com cheiro forte, muitas vezes sem dor, junto com uma perda auditiva que vai aumentando. Muita gente convive com isso por anos achando que é "só uma otite que vai e volta".
Procure avaliação sem esperar se aparecer:
- tontura giratória;
- dor intensa;
- febre;
- dor de cabeça persistente;
- fraqueza de um lado do rosto.
Por que não dá para esperar
O colesteatoma cresce e pode alcançar estruturas importantes ao redor do ouvido médio:
- Os ossinhos da audição. Martelo, bigorna e estribo levam o som do tímpano ao ouvido interno. Quando são corroídos, surge uma perda auditiva que costuma ser permanente sem reconstrução.
- O labirinto, a parte do ouvido interno responsável pelo equilíbrio. Uma erosão da sua parede, chamada fístula labiríntica, provoca tontura giratória e pode levar a uma perda auditiva que a cirurgia não recupera.
- O nervo facial, que passa por dentro do osso, ao lado do ouvido médio. Se ele for atingido, surge fraqueza ou paralisia de um lado do rosto.
- As estruturas vizinhas ao crânio. São complicações raras, mas graves, como meningite, abscesso e trombose de seio venoso, quando a doença ultrapassa o osso.
Nada disso acontece da noite para o dia, e a maioria das pessoas com otite crônica nunca chega a esse ponto. Mas quanto antes eu identifico um colesteatoma, menor é a extensão do que ele já alcançou.
Veja em vídeo
Vídeo no Instagram Assista no InstagramComo é a minha avaliação
| Etapa | Para que serve |
|---|---|
| Consulta e otoscopia | Ver o tímpano e sinais de colesteatoma |
| Audiometria | Medir o grau e o tipo da perda auditiva |
| Imitanciometria | Avaliar o tímpano e os ossinhos quando não há perfuração, ou na outra orelha |
| Tomografia dos ossos temporais | Ver o osso temporal, os ossinhos e a extensão da doença. |
| Avaliação clínica | Verificar as condições de saúde para a anestesia |
O que é a mastoidectomia
A mastoide é o osso logo atrás da orelha, cheio de pequenas cavidades de ar ligadas ao ouvido médio. O colesteatoma costuma se estender até ali. Na mastoidectomia, removo a doença do ouvido médio e da mastoide. Quando, na mesma cirurgia, também reconstruo o tímpano, o nome é timpanomastoidectomia.
Os objetivos têm uma ordem clara:
- Remover o colesteatoma por completo e deixar o ouvido seco e seguro. Este é o principal.
- Preservar ou reconstruir a audição, quando possível. Esse ganho depende do estado dos ossinhos e da cóclea, e eu converso sobre isso com você antes da cirurgia.
Existem técnicas diferentes. Em algumas, mantenho a parede do canal do ouvido. Em outras, é preciso abri-la para retirar toda a doença, e o ouvido fica com uma cavidade maior, que precisa de limpezas periódicas no consultório. A escolha depende da extensão do colesteatoma e é explicada antes da cirurgia.
Como é a cirurgia
Opero sempre com anestesia geral, em ambiente hospitalar, em geral por uma incisão atrás da orelha. O paciente geralmente vai para casa no mesmo dia.
Duas técnicas: simples ou radical
Existem dois tipos de mastoidectomia. A escolha depende da extensão do colesteatoma e da sua situação:
Mastoidectomia simples (canal-wall-up)
Removo o colesteatoma e o tecido inflamado do osso mastóideo, mas mantenho a parede do canal do ouvido intacta. Preserva a audição normal, mas tem risco maior de recidiva (o colesteatoma pode voltar).
Mastoidectomia radical (canal-wall-down)
Removo o colesteatoma E abro a parede do canal, criando uma cavidade permanente. Isso garante que não volte, mas requer cuidados contínuos com água e higiene.
Cuidados se for mastoidectomia radical
Se sua cirurgia for radical, você precisará:
- Proteger o ouvido contra água permanentemente — piscina, praia, chuveiro. Use tampão auricular e touca de natação.
- Nunca introduzir objetos no ouvido — nem cotonete, nem fone de ouvido.
- Fazer limpezas periódicas no consultório, porque a cavidade pode reter cerume e secreção.
- Evitar mergulho e esportes aquáticos — a pressão e a água podem infectar a cavidade.
- Procurar o consultório se notar escorrimento, dor atrás da orelha, tontura ou paralisia facial.
Recuperação e acompanhamento
- Ouvido protegido da água até eu liberar.
- Não assoar o nariz com força nem fazer esforço intenso no período que eu orientar.
- Ouvido tampado e audição abafada nas primeiras semanas são esperados, por causa do curativo dentro do canal.
- Retornos no consultório para limpeza e acompanhamento da cicatrização.
O acompanhamento é longo
O colesteatoma pode voltar ou deixar restos microscópicos, mesmo depois de uma cirurgia bem feita. Por isso acompanho o ouvido por anos, às vezes com ressonância magnética. Em alguns casos, uma segunda cirurgia já é planejada desde o início, para confirmar que não restou doença e completar a reconstrução da audição.
Riscos
Explico os riscos em detalhe na consulta. Os mais conhecidos são:
- a volta do colesteatoma;
- alteração do paladar;
- tontura passageira;
- zumbido passageiro ou permanente;
- piora da audição;
- raramente, fraqueza do nervo facial.
O plano de saúde cobre?
- A consulta comigo é particular.
- A cirurgia pode ser feita pelos convênios aceitos na Clínica Rhinus, dentro das regras de cada operadora.
Para a sua primeira consulta
Traga a tomografia, a audiometria e os laudos que já tiver, inclusive de cirurgias anteriores no ouvido. Eu analiso tudo com você, na própria consulta.
Consultas às segundas e sextas, das 9h30 às 11h30 e das 14h30 às 17h, e às terças e quintas, das 14h30 às 17h — presenciais na Clínica Rhinus, em São Luís, ou por teleconsulta.
Conteúdo revisado pela Dra. Aline Gomes Bittencourt · CRM-MA 7562 · RQE 1832 · em